Monthly Archives: March 2008

CAFÉ TURCO: Now in english version!

There is a portuguese popular expression that says “A língua portuguesa é muito traiçoeira” (the portuguese language is very treacherous). There is also a song by the portuguese group Clã, that, refering to the fact that it is so hard for us portuguese to declare our feelings, “devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém” (it should be like the movies, the english language always sounds good and it never betrays anyone).

And there is the famous quote of a text by Fernando Pessoa, ” A minha pátria é a língua portuguesa” (my homeland is the portuguese language). So, as I decided to mentally emigrate and stop writing blogs in portuguese and switch to the English language, I could not avoid the strange feeling that I was abandoning my homeland, denying myself the possibility of expressing my impressions in a language that may not be well suited to make declarations of love (I didn’t intend to make them anyway) but is the perfect language to express irony, doubts, conjectures, and all other ideas that lack precision.

On the other hand, by writing in English, I will have the opportunity to share my impressions with lots of people that I couldn’t reach otherwise. OK, some modesty is needed here: why would lots of people be interested in my impressions? So I will rephrase it: by writing in English, I will be able to share my impressions with those friends of mine who hadn’t yet had the supreme joy of mastering the portuguese language, and, who knows, maybe some of those 149 people who appeared in the previous portuguese version will find some interest in this new international version of Café Turco.

When I first created Café Turco, my main intention was to express some of my impressions about the Balkans, a region that is perceived in Portugal as a distant land that has no interest whatsoever except when there is blood flowing there. Now that I will write in English, it is my intention to enhance the scope of this blog and write also about my own country, Europe and global issues.

From time to time, cooking lessons will be held uncovering the mysteries of some of the most delicious food that mankind has ever produced…

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KOSOVO: um mês de Independência.

Passou ontem um mês desde que o Kosovo de tornou um Estado independente. O International Crisis Group publica hoje um relatório descrevendo os acontecimentos ocorridos ao longo do mês.

Ao longo do último mês, deparei-me com um número infindável de disparates escritos sobre o Kososo, alguns dos quais em blogs cujos autores eu tinha em boa conta, mas que, infelizmente, fui obrigada a constatar não saberem distinguir entre fontes de informação credíveis e propaganda. Nunca me dei ao trabalho de comentar ou reagir às inúmeras afirmações reveladoras não só de ignorância, mas também, o que é mais grave, de relativismo moral e mesmo de racismo porque considero que não vale a pena reagir a quente nem discutir com quem não é capaz de procurar encarar os problemas do mundo de forma racional.

A credibilidade do ICG é certamente muito maior do que a deste blog, como também sabem muito mais do que eu os analistas que redigiram o relatório. Por isso, para quem estiver de boa-fé, para quem não se deixa dominar por preconceitos anti-islâmicos e anti-imperialistas, leia-se anti-americanos, aqui está uma boa contribuição para a compreensão do que se está a passar no Kosovo.

O acesso ao documento completo é feito mediante registo, mas é gratuito.


Kosovo’s First Month, ICG, 18/03/2008


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O café como símbolo cultural.

A maneira como preparamos e bebemos o café diz muito sobre quem somos.

Uma das maiores surpresas que tive nas minhas viagens pelos Balcãs foi a facilidade com que me viciei em café turco. Não é muito habitual os estrangeiros gostarem, o que se deve sobretudo à sua falta de paciência. O café turco, ao contrário da nossa bica, é para beber devagar, porque, primeiro, é preciso deixar assentar as borras. Para quem não sabe esperar, a experiência pode ser traumática (dizem, não sei, não me aconteceu, eu sou uma pessoa paciente, ainda assim posso imaginar…).

Na Sérvia actual, muita gente tende a encarar o café turco como um hábito rudimentar, um resquício do passado que convém esquecer. Actualmente, o supra-sumo do requinte é beber café instantâneo. Quando as pessoas recebem visitas, é de bom tom oferecer café instantâneo.

Mas o supra-sumo da sofisticação é beber café expresso, que nunca custa, nos cafés de Belgrado, menos de um euro.
E o supra-sumo do nacionalismo é continuar a beber café turco, mas chamar-lhe café sérvio.

Mas, chamem-lhe o que quiserem, e bebam-no da forma como mais gostarem. O que é inegável é que o café é um dos indicadores mais óbvios da importância da cultura otomana para a identidade cultural dos povos dos Balcãs.

Fotos: Café turco em Sarajevo (em cima) e em Belgrado (devidamente acompanhado de um bolo delicioso). Fotos da autora.

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ELEIÇÕES EM ESPANHA: impacto da independência do kosovo

Os resultados eleitorais em Espanha desmentem em toda a linha a pseudo-teoria do efeito dominó.

Entre os profetas da desgraça, foram muitos os que previam uma terrível ameaça à integridade territorial do estado epanhol, pelo facto de o Kosovo ter tido a ousadia de se tornar independente, e mais ainda por ma série de estados terem procedido o tencionarem proceder ao respectivo reconhecimento.

Tais mentes delirantes terão eventualmente imaginado hordas de nacionalistas bascos, catalães ou até galegos a reagir de forma pavloviana à campaínha da independência…

Ora, o que nos dizem os resultados das eleições legislativas de ontem? Deixemos de lado os resultados nacionais, menos relevantes para a questão em apreço, e olhemos então para os resultados parciais nas regiões mais conotadas com aspirações nacionalistas:

1- País Basco:

Participação eleitoral em 2008:64.9%
em 2004:75.9%

Venceu o PSOE, com 425.567 votos, correspondendo a 38,09 %.
Em 2004, teve 336.958 votos, correspondendo a 27.23%.
Ou seja, aumentou tanto em termos percentuais como em número de votantes.

O segundo partido mais votado é o partido nacionalista EAJ-PNV, com 303.246 votos (27,14%). Este partido perdeu tanto em número de votantes como percentualmente. Em 2004 tinha tido 417.154 votos (33,71 %). Destaque-se que, apesar de se tratar de um partido assumidamente nacionalista, rejeita o uso da violência condena a actuação da ETA.

Se somarmos os resultados do PSOE com os do PP (18.5%), chegaremos à conclusão de que 56.59% dos votantes optaram por partidos que não defendem o nacionalismo basco.

2-Catalunha:

Participação eleitoral em 2008: 71.19%
em 2004: 76.96%

Venceu o PSOE, com 1672777 votos, correspondendo a 45.33 %.
Em 2004, teve 1577330 votos, correspondendo a 39.5%.
Ou seja, aumentou tanto em termos percentuais como em número de votantes.

O segundo partido mais votado é o partido nacionalista CIU, com 774.317 votos (2o.98%). Este partido perdeu em número de votantes embora tenha subido ligeiramente em termos percentuais. Em 2004 tinha tido 829.042 votos (20.76%)

Se somarmos os resultados do PSOE com os do PP (16.39%), chegaremos à conclusão de que 61.72% dos votantes optaram por partidos que não defendem o nacionalismo catalão.

A Espanha é um estado com um grande nível de descentralização, que oferece às diversas regiões que o compõem uma substancial autonomia em termos políticos, económicos e culturais. É também m país que, sendo multinacional, é constituido por nações com profundos laços culturais entre elas, e aqui incluo a nação basca, que, apesar de se distinguir por uma maior diversidade, em em particular pelo facto de ter uma língua nacional de origem não latina, contribui através das suas características para o imaginário que dá forma uma identidade especificamente espanhola que une a esmagadora maioria do povo espanhol.

Ao democratizar-se, a Espanha tem sabido cortar com as políticas repressivas relativamente às nações não castelhanas que marcaram o regime franquista, bem como com o tradicional centralismo de Castela que, historicamente procurou, desde o tempo dos Reios Católicos, absorver o resto da península ibérica.

Por muito que aos nacionalistas bascos, catalães ou galegos possa parecer tentador usar o caso do Kosovo como precedente para a independência destas regiões, a coparação não pega, porque se trata de casos que nada têm em comum. Se um dia se fizer um referendo no Pais Basco, ou na Catalunha, e os seus cidadãos decidirem que não querem continuar a ser espanhois, estão no seu direito. Também no Canadá já se organizaram dois referendos para a independência do Quebec, e os seus cidadãos preferiram continuar a ser canadianos.

Tenho a certeza de que se olharmos para outras regiões, como a Escócia, a Córsega, etc, chegaremos a conclusões semelhantes. Retomo o argumento que me levou a congratular-me pela independência do Kosovo. A legitimidade é muito mais importante do que a ficção da soberania. A soberania não dá a nenhum governo o direito de tratar de forma ilegítima uma parte da população do seu território.

Se outros povos oprimidos se inspirarem no sucesso do caso do Kosovo, estarão no seu direito. Ser livre é uma coisa muito boa e é natural que todas as pessoas aspirem à liberdade. O que já nãp me parece tão natural, mas sim revelador de um relativismo moral repugnante é as pessoas quererem liberdade para si e para os ‘seus’ mas considerarem ilegítimo que ‘os outros’ nutram a mesma aspiração.

Fonte para os dados eleitorais: El País.

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SÉRVIA: queda do governo, uma análise.

Trata-se de uma notícia que não surpreende.
Há alguns meses, publiquei no blog Devaneios Desintéricos uma análise aos resultados eleitorais das eleições legislativas que resultaram na formação do governo que hoje acabou de cair, com o título de:
Como depreenderá quem se der ao trabalho de ler o texto, tratava-se de um governo fraco, que juntava forças com perspectivas ideológicas e interesses divergentes quanto ao rumo a dar ao paí, e cujo principais factores de coesão consistiam apenas na vontade de ser poder, e no facto de serem identificadas pela União Europeia como pertencentes ao “campo democrático”, em contraponto com partidos como o partido Radical ou o Partido Socialista da Sérvia, cujo carácter autocrático dos respectivos ideais é assumido pelos próprios.
Na realidade, a grande divisão política na Sérvia é entre aqueles que defendem o nacionalismo como a única forma de preservar a sociedade, ainda que pagando o preço do isolamento internacional, e aqueles para quem o futuro está na participação do país no processo de integração europeia, ainda que o preço a pagar seja a necessidade de assumir que a perda do Kosovo era inevitável.
Nas recentes eleições presidenciais, tal confronto tornou-se claro aos olhos de todos (de todos os que querem enxergar…). Kostunica recusou-se a apoiar o seu parceiro de coligação, o líder do partido Democrático e Presidente cessante Boris Tadic, enquanto este travava uma vigorosa batalha com Tomislav Nikolic, do ultranacionalista Partido radical. Embora ambos se declarassem contra a independência do Kosovo, Tadic, líder do Partido Democrata, insistiu sempre na ideia de que a integração europeia era o rumo certo para o futuro da Sérvia.
Tadic saiu vitorioso na segunda volta, a 3 de Fevereiro, por uma margem de 116733 votos, numas eleições com contaram com a participação de 67,6% dos eleitores. Significativamente, foi às regiões com um maior número de eleitores pertencentes a minorias étnicas ou religiosas, como a Vojvodina ou o Sandjak, que Tadic foi buscar os votos que lhe faltavam para derrotar os nacionalistas.
Precisamente duas semanas depois, no dia 17, Tadic enfrentaria o seu primeiro grande desafio: a declaração de independência do Kosovo, apoiada pela UE, pelos EUA e por uma série de outros países.
Desde esse dia, o ambiente político na Sérvia tornou-se insuportável para todos aqueles que não dêem quaiquer sinais de que não estão dispostos a continuar a alimentar a paranoia nacionalista.
A independência do Kosovo precipitou uma nova batalha pelo poder em Belgrado, muito bem resumida neste excerto retirado do site da cadeia de televisão e rádio B 92:


O futuro da Sérvia joga-se nas eleições antecipadas, cuja data mais provável é 11 de Maio. O campo nacionalista está obviamente unido. A possibilidade de a Sérvia se transformar na Bielorrússia dos Balcãs é real, mas não é inevitável. O que é certo (e faço a ressalva do quase), é que, desta vez, não haverá margem a ambiguidades. A questãodo Kosovo veio tornar inevitável esta clarificação. Não é possível querer uma coisa e o seu contrário.
Seja qual for o resultado, a responsabilidade da decisão cabe aos cidadãos da Sérvia.

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A independência do Kosovo e os profetas da desgraça

Hoje o governo esloveno reconheceu a independência do Kosovo. Trata-se do 15º país da União Europeia a fazê-lo e o primeiro estado da ex-Jugoslávia. São já 26 os estados que reconhecem o Kosovo como estado independente, isto em apenas 18 dias desde a declaração de Independência, a 17 de Fevereiro.
O facto de o Kosovo praticamente ter desaparecido dos noticiários é revelador de que aqueles que previam o caos estavam enganados. Até agora, não houve qualquer incidente inter-étnico. Por outro lado, depois de, nos primeiros dias, as forças internacionais terem demontrado algumas dificuldades em lidar com a estratégia sérvia de desestabilização do norte do Kosovo, neste momento todos os sinais apontam para que os responsáveis pela presença internacional no Kosovo não estejam dispostos a tolerar qualquer desestabilização.
Como referiu hoje o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer:
Como referi anteriormente, o principal desafio para a democratização do Kosovo independente consiste na integração das minorias, e em particular no estabelecimento de uma relação contrutiva entre os albaneses e os sérvios do Kosovo que permita fazer sarar as feridas do passado.
Talvez isto pareça irrealista. Mas não é. Quando era criança, lembro-me de ver todas as noites na televisão as notícias sobre a Irlanda do Norte. Ninguém acreditava que uma solução fosse possível.
Também só os ingénuos e os idealistas acreditavam que, na África do Sul, um dia o apartheid haveria de ruir, e lembro-me mesmo de não serem poucas as pessoas que achavam que a segregação racial não era essa coisa horrível que a televisão mostrava. Como argumento usavam, claro, o exemplo das guerras civis em Angola e Moçambique. Então não era muito melhor serem os brancos a governar? os pretos, coitados, eram como que umas crianças grandes, não tinha capacidade para se governarem a si mesmos. Depois, quando De Kleerk e Mandela desmantelaram o regime do Apartheid, surgiram de novo os profetas da desgraça a prever que o poder ia cair nas ruas, etc e tal. Hoje a África do sul é um país respeitável, uma potência regional que, embora enfrente problemas graves como o da violência urbana ou o da SIDA, não deixa de ser reconhecida como um actor incontornável para a resolução dos problemas do continente africano e dos problemas de desenvolvimento humano em geral.
Também é para a África do Sul que muita gente olha quando quer aprender alguma coisa sobre o que fazer para trabalhar no sentido da reconciliação entre comunidades que no passado se viam umas às outras como inimigas.
Não aceito que as pessoas apresentem os albanenses como um bando de mafiosos ou um povo primitivo, da mesma maneira que, apesar de a Sérvia ter sido, até agora, incapaz de cortar com a ideologia nacionalista que tornou possível a destruição de Vukovar, o cerco de Sarajevo, o massacre de Srebrenica e tantos outros crimes, me recuso a encarar os sérvios como nacionaistas atávicos, ou como um povo refém do seu passado, refém de uma batalha perdida há mais de 600 anos.
Por isso me espante, me choca, me perturba ver alguém dizer: eu não sou pró-sérvio, mas…
Ser pró ou anti mais não é do que uma demonstração de preconceito, e muitas vezes uma manifestação de racismo.
Aos kosovares de todas as etnias, desejo que o seu novo país consiga proporcionar-lhes uma vida melhor.
Aos habitantes da Sérvia de todas as etnias, desejo que que deixem de ser reféns daquele que apenas pensam nos territórios e não nas pessoas que lá vivem e que se juntem a nós, cidadãos da União Europeia, que deixem de se ter de se submeter à humilhação de passar horas e horas dias e dias nas bichas à porta das Embaixadas cada vez que querem viajar. Sei que a coisa não está fácil para aqueles que, na Sérvia, estão empenhados em trabalhar para transformar o seu país numa sociedade aberta. Algumas dessas pessoas estão ameaçadas de morte, e muitas estão a ser diariamente sujeitas a diversas formas de intimidação.

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