A independência do Kosovo e os profetas da desgraça

Hoje o governo esloveno reconheceu a independência do Kosovo. Trata-se do 15º país da União Europeia a fazê-lo e o primeiro estado da ex-Jugoslávia. São já 26 os estados que reconhecem o Kosovo como estado independente, isto em apenas 18 dias desde a declaração de Independência, a 17 de Fevereiro.
O facto de o Kosovo praticamente ter desaparecido dos noticiários é revelador de que aqueles que previam o caos estavam enganados. Até agora, não houve qualquer incidente inter-étnico. Por outro lado, depois de, nos primeiros dias, as forças internacionais terem demontrado algumas dificuldades em lidar com a estratégia sérvia de desestabilização do norte do Kosovo, neste momento todos os sinais apontam para que os responsáveis pela presença internacional no Kosovo não estejam dispostos a tolerar qualquer desestabilização.
Como referiu hoje o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer:
Como referi anteriormente, o principal desafio para a democratização do Kosovo independente consiste na integração das minorias, e em particular no estabelecimento de uma relação contrutiva entre os albaneses e os sérvios do Kosovo que permita fazer sarar as feridas do passado.
Talvez isto pareça irrealista. Mas não é. Quando era criança, lembro-me de ver todas as noites na televisão as notícias sobre a Irlanda do Norte. Ninguém acreditava que uma solução fosse possível.
Também só os ingénuos e os idealistas acreditavam que, na África do Sul, um dia o apartheid haveria de ruir, e lembro-me mesmo de não serem poucas as pessoas que achavam que a segregação racial não era essa coisa horrível que a televisão mostrava. Como argumento usavam, claro, o exemplo das guerras civis em Angola e Moçambique. Então não era muito melhor serem os brancos a governar? os pretos, coitados, eram como que umas crianças grandes, não tinha capacidade para se governarem a si mesmos. Depois, quando De Kleerk e Mandela desmantelaram o regime do Apartheid, surgiram de novo os profetas da desgraça a prever que o poder ia cair nas ruas, etc e tal. Hoje a África do sul é um país respeitável, uma potência regional que, embora enfrente problemas graves como o da violência urbana ou o da SIDA, não deixa de ser reconhecida como um actor incontornável para a resolução dos problemas do continente africano e dos problemas de desenvolvimento humano em geral.
Também é para a África do Sul que muita gente olha quando quer aprender alguma coisa sobre o que fazer para trabalhar no sentido da reconciliação entre comunidades que no passado se viam umas às outras como inimigas.
Não aceito que as pessoas apresentem os albanenses como um bando de mafiosos ou um povo primitivo, da mesma maneira que, apesar de a Sérvia ter sido, até agora, incapaz de cortar com a ideologia nacionalista que tornou possível a destruição de Vukovar, o cerco de Sarajevo, o massacre de Srebrenica e tantos outros crimes, me recuso a encarar os sérvios como nacionaistas atávicos, ou como um povo refém do seu passado, refém de uma batalha perdida há mais de 600 anos.
Por isso me espante, me choca, me perturba ver alguém dizer: eu não sou pró-sérvio, mas…
Ser pró ou anti mais não é do que uma demonstração de preconceito, e muitas vezes uma manifestação de racismo.
Aos kosovares de todas as etnias, desejo que o seu novo país consiga proporcionar-lhes uma vida melhor.
Aos habitantes da Sérvia de todas as etnias, desejo que que deixem de ser reféns daquele que apenas pensam nos territórios e não nas pessoas que lá vivem e que se juntem a nós, cidadãos da União Europeia, que deixem de se ter de se submeter à humilhação de passar horas e horas dias e dias nas bichas à porta das Embaixadas cada vez que querem viajar. Sei que a coisa não está fácil para aqueles que, na Sérvia, estão empenhados em trabalhar para transformar o seu país numa sociedade aberta. Algumas dessas pessoas estão ameaçadas de morte, e muitas estão a ser diariamente sujeitas a diversas formas de intimidação.

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One response to “A independência do Kosovo e os profetas da desgraça

  1. Não gotei pois na verdade não estava procurando isso…Queria o desenvolvimento humano do Kosovo….
    Mas mesmo assim gostei muito da matéria….
    Meus parabéns!*–*