SÉRVIA: queda do governo, uma análise.

Trata-se de uma notícia que não surpreende.
Há alguns meses, publiquei no blog Devaneios Desintéricos uma análise aos resultados eleitorais das eleições legislativas que resultaram na formação do governo que hoje acabou de cair, com o título de:
Como depreenderá quem se der ao trabalho de ler o texto, tratava-se de um governo fraco, que juntava forças com perspectivas ideológicas e interesses divergentes quanto ao rumo a dar ao paí, e cujo principais factores de coesão consistiam apenas na vontade de ser poder, e no facto de serem identificadas pela União Europeia como pertencentes ao “campo democrático”, em contraponto com partidos como o partido Radical ou o Partido Socialista da Sérvia, cujo carácter autocrático dos respectivos ideais é assumido pelos próprios.
Na realidade, a grande divisão política na Sérvia é entre aqueles que defendem o nacionalismo como a única forma de preservar a sociedade, ainda que pagando o preço do isolamento internacional, e aqueles para quem o futuro está na participação do país no processo de integração europeia, ainda que o preço a pagar seja a necessidade de assumir que a perda do Kosovo era inevitável.
Nas recentes eleições presidenciais, tal confronto tornou-se claro aos olhos de todos (de todos os que querem enxergar…). Kostunica recusou-se a apoiar o seu parceiro de coligação, o líder do partido Democrático e Presidente cessante Boris Tadic, enquanto este travava uma vigorosa batalha com Tomislav Nikolic, do ultranacionalista Partido radical. Embora ambos se declarassem contra a independência do Kosovo, Tadic, líder do Partido Democrata, insistiu sempre na ideia de que a integração europeia era o rumo certo para o futuro da Sérvia.
Tadic saiu vitorioso na segunda volta, a 3 de Fevereiro, por uma margem de 116733 votos, numas eleições com contaram com a participação de 67,6% dos eleitores. Significativamente, foi às regiões com um maior número de eleitores pertencentes a minorias étnicas ou religiosas, como a Vojvodina ou o Sandjak, que Tadic foi buscar os votos que lhe faltavam para derrotar os nacionalistas.
Precisamente duas semanas depois, no dia 17, Tadic enfrentaria o seu primeiro grande desafio: a declaração de independência do Kosovo, apoiada pela UE, pelos EUA e por uma série de outros países.
Desde esse dia, o ambiente político na Sérvia tornou-se insuportável para todos aqueles que não dêem quaiquer sinais de que não estão dispostos a continuar a alimentar a paranoia nacionalista.
A independência do Kosovo precipitou uma nova batalha pelo poder em Belgrado, muito bem resumida neste excerto retirado do site da cadeia de televisão e rádio B 92:


O futuro da Sérvia joga-se nas eleições antecipadas, cuja data mais provável é 11 de Maio. O campo nacionalista está obviamente unido. A possibilidade de a Sérvia se transformar na Bielorrússia dos Balcãs é real, mas não é inevitável. O que é certo (e faço a ressalva do quase), é que, desta vez, não haverá margem a ambiguidades. A questãodo Kosovo veio tornar inevitável esta clarificação. Não é possível querer uma coisa e o seu contrário.
Seja qual for o resultado, a responsabilidade da decisão cabe aos cidadãos da Sérvia.

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