ELEIÇÕES EM ESPANHA: impacto da independência do kosovo

Os resultados eleitorais em Espanha desmentem em toda a linha a pseudo-teoria do efeito dominó.

Entre os profetas da desgraça, foram muitos os que previam uma terrível ameaça à integridade territorial do estado epanhol, pelo facto de o Kosovo ter tido a ousadia de se tornar independente, e mais ainda por ma série de estados terem procedido o tencionarem proceder ao respectivo reconhecimento.

Tais mentes delirantes terão eventualmente imaginado hordas de nacionalistas bascos, catalães ou até galegos a reagir de forma pavloviana à campaínha da independência…

Ora, o que nos dizem os resultados das eleições legislativas de ontem? Deixemos de lado os resultados nacionais, menos relevantes para a questão em apreço, e olhemos então para os resultados parciais nas regiões mais conotadas com aspirações nacionalistas:

1- País Basco:

Participação eleitoral em 2008:64.9%
em 2004:75.9%

Venceu o PSOE, com 425.567 votos, correspondendo a 38,09 %.
Em 2004, teve 336.958 votos, correspondendo a 27.23%.
Ou seja, aumentou tanto em termos percentuais como em número de votantes.

O segundo partido mais votado é o partido nacionalista EAJ-PNV, com 303.246 votos (27,14%). Este partido perdeu tanto em número de votantes como percentualmente. Em 2004 tinha tido 417.154 votos (33,71 %). Destaque-se que, apesar de se tratar de um partido assumidamente nacionalista, rejeita o uso da violência condena a actuação da ETA.

Se somarmos os resultados do PSOE com os do PP (18.5%), chegaremos à conclusão de que 56.59% dos votantes optaram por partidos que não defendem o nacionalismo basco.

2-Catalunha:

Participação eleitoral em 2008: 71.19%
em 2004: 76.96%

Venceu o PSOE, com 1672777 votos, correspondendo a 45.33 %.
Em 2004, teve 1577330 votos, correspondendo a 39.5%.
Ou seja, aumentou tanto em termos percentuais como em número de votantes.

O segundo partido mais votado é o partido nacionalista CIU, com 774.317 votos (2o.98%). Este partido perdeu em número de votantes embora tenha subido ligeiramente em termos percentuais. Em 2004 tinha tido 829.042 votos (20.76%)

Se somarmos os resultados do PSOE com os do PP (16.39%), chegaremos à conclusão de que 61.72% dos votantes optaram por partidos que não defendem o nacionalismo catalão.

A Espanha é um estado com um grande nível de descentralização, que oferece às diversas regiões que o compõem uma substancial autonomia em termos políticos, económicos e culturais. É também m país que, sendo multinacional, é constituido por nações com profundos laços culturais entre elas, e aqui incluo a nação basca, que, apesar de se distinguir por uma maior diversidade, em em particular pelo facto de ter uma língua nacional de origem não latina, contribui através das suas características para o imaginário que dá forma uma identidade especificamente espanhola que une a esmagadora maioria do povo espanhol.

Ao democratizar-se, a Espanha tem sabido cortar com as políticas repressivas relativamente às nações não castelhanas que marcaram o regime franquista, bem como com o tradicional centralismo de Castela que, historicamente procurou, desde o tempo dos Reios Católicos, absorver o resto da península ibérica.

Por muito que aos nacionalistas bascos, catalães ou galegos possa parecer tentador usar o caso do Kosovo como precedente para a independência destas regiões, a coparação não pega, porque se trata de casos que nada têm em comum. Se um dia se fizer um referendo no Pais Basco, ou na Catalunha, e os seus cidadãos decidirem que não querem continuar a ser espanhois, estão no seu direito. Também no Canadá já se organizaram dois referendos para a independência do Quebec, e os seus cidadãos preferiram continuar a ser canadianos.

Tenho a certeza de que se olharmos para outras regiões, como a Escócia, a Córsega, etc, chegaremos a conclusões semelhantes. Retomo o argumento que me levou a congratular-me pela independência do Kosovo. A legitimidade é muito mais importante do que a ficção da soberania. A soberania não dá a nenhum governo o direito de tratar de forma ilegítima uma parte da população do seu território.

Se outros povos oprimidos se inspirarem no sucesso do caso do Kosovo, estarão no seu direito. Ser livre é uma coisa muito boa e é natural que todas as pessoas aspirem à liberdade. O que já nãp me parece tão natural, mas sim revelador de um relativismo moral repugnante é as pessoas quererem liberdade para si e para os ‘seus’ mas considerarem ilegítimo que ‘os outros’ nutram a mesma aspiração.

Fonte para os dados eleitorais: El País.

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